1 de março de 2014

A unidade cívico-militar na Venezuela

A unidade cívico-militar na Venezuela

Por Beto Almeida

"A revolução bolivariana é pacífica, pero armada" - Hugo Chávez
Há 25 anos, num 27 de fevereiro de 1989, o então presidente da Venezuela, Carlos Andrés Perez, lançou um pacote neoliberal explosivo aumentando drasticamente o preço da gasolina e dos alimentos. O povo de Caracas se rebela, sai às ruas, saqueia supermercados, lojas de roupas, açougues. Perez d ordens para o exército reprimir com vigor. Centenas de cidadãos são mortos. O número exato ainda está por ser calculado, pois muitos foram enterrados em valas comuns ou atirados nos lixões da cidade.

Quando tive a oportunidade entrevistar o presidente Chávez, no Palácio de Miraflores, ele contou que está em serviço e soube quando a ordem de reprimir foi dada e as tropas lançaram-se pelos bairros pobres, esmagando sem dó nem piedade a rebelião, conhecida com o nome de Caracazzo. Chávez dizia que o Caracazzo foi o estopim, a alavanca , o encorajamento fundamental para que o movimento militar bolivariano, cuja construção liderava dentro dos quartéis de toda a nação, se decidira a agir. Aquela repressão havia provocado nas fileiras progressistas e nacionalistas militares muito mais do que uma indignação.

47 segundos versus 10 anos

Quase três anos depois, em 4 de fevereiro de 1992, Chávez comandava uma insurreição militar que pretendia colocar um fim no governo neoliberal e corrupto de Andrés Peres e , com o apoio popular, convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. Do ponto de vista militar, a insurreição não foi vitoriosa. Dialeticamente, foi vitoriosa do ponto de vista político. Hugo Chávez comandou a rendição para poupar vidas, entregou -se, e foi preso. Na prisão, transforma-se no homem mais popular da Venezuela. O povo venezuelano identificou naqueles poucos segundos em que Chávez usou a cadeia de rádio e TV - exigência para a rendição - que aquele homem, meio negro e meio índio, era um dos seus, que falava sua língua, representava seus anseios largamente reprimidos. Tanto assim que longas filas, diariamente, se formaram para visitar a Chávez na prisão. Gente proletária, sofrida, humilde, que tinha tido a objetividade histórica de compreender que ali estava preso o seu líder, enquanto os intelectuais pedantes discutiam, interminavelmente, se Chávez era um populista, um golpista, um autoritário ou um militaresco fascista.

Certa vez, em debate com um dirigente do Partido Comunista Espanhol, em Madrid, escutei-o dizer que só depois do golpe de 2002, ele tivera certeza de que Chávez era de esquerda. Contra argumentando, assinalei que enquanto ele tinha levado 10 anos para entender a função história de Chávez, o povo venezuelano levara apenas 47 segundos para compreendê-lo , tempo exato daquela declaração do líder da insurreição bolivariana por cadeia para render-se, “por ahora”.

O Caracazzo pariu a Insurreição de 4 de Fevereiro de 1992. Mas, é chocante observar, ainda hoje, a infinita hipocrisia dos meios de comunicação internacionais e dos governos que os controlam ou manipulam, diante da crise atual da Venezuela. Quando o governo venezuelano de 1989 mandou reprimir e matou a rodo populares nas ruas de Caracas - Chávez insistia sempre que eram milhares os mortos - esta mídia que faz o maior estardalhaço sobre uma inexistente guerra civil na Venezuela hoje, na época, não fez nenhum escândalo diante da matança aos olhos de todos, nas ruas caraquenhas. Tampouco os governos , como o dos Estados Unidos, que lançam cínicos comunicados de “preocupação com os direitos humanos na Venezuela”, na época , foram os patrocinadores do pacote neoliberal de Carlos Andrés Perez, fizeram o mais criminoso silêncio. O silêncio da cumplicidade com aquela matança.

Maldito seja...
O Caracazzo foi uma rebelião popular que levou a uma lição fundamental para os militares revolucionários que se organizavam em torno de Chávez, entre eles o Embaixador da Venezuela no Brasil, Almirante Diego Molero. E a lição era a aplicação de uma das frases de Bolívar mais repetidas pelo próprio Chávez, linha de princípio do movimento que, depois de anos de preparação política doutrinária, preparava-se para agir: “Maldito seja o soldado que aponta seu fuzil contra seu próprio povo!”

Porém, a linha doutrinária, programática, ia muito mais além. Recuperava e atualizava o Simon Bolívar integracionista, reformador social, criando outra concepção para o papel dos militares: a integração latino-americana, a unidade cívico-militar e a sustentação pela via democrática, porém de armas nas mãos, do processo de mudanças em busca de justiça social. Afinal, a Venezuela, um país tão rico, possuía 85 por cento de pobres e miseráveis, uma maioria de analfabetos, favelas desumanas por todos os lados, enquanto sua burguesia era conhecida por ser uma das maiores consumidoras de caviar e champanhe do mundo, perdendo apenas para burguesia francesa.

Hoje, 25 anos depois do Caracazzo, já podemos contabilizar os frutos na Revolução Bolivariana, mesmo assediada, atacada, sabotada, golpeada por mais de 15 anos. O país de Bolívar não tem mais analfabetos, diz a Unesco. Diz a FAO que houve redução drástica da desnutrição e da fome no país. Os trabalhadores já possuem uma lei trabalhista moderna e foram universalizados os direitos previdenciários. Lá se paga um dos maiores salários mínimos da América Latina, comparativamente falando. E, pela primeira vez na história do país, o petróleo, que enriqueceu por décadas uma camarilha insensível e corrupta, agora tem a sua receita aplicada na construção de moradias, de universidades bolivarianas, na sustentação do ensino público gratuito, na instalação de milhares de postos de saúde, com presença de mais 23 mil médicos cubanos, o que reduziu tremendamente a mortalidade infantil.

Claro que a Venezuela tem muitos outros desafios a superar, a começar pela economia rentista do petróleo, como disse hoje, em Brasília, o Chanceler Bolivariano, Elias Jaua, bem como enfrentar a criminalidade, que, aliás, não é problema exclusivo venezuelano. Ele informou sobre os focos de violência orquestrados por pequenos grupos de agentes provocadores , com apoio do exterior. Enquanto a Venezuela possui 325 municípios, as ações violentas registraram-se em apenas 18 localidades de todo o país. Reveladora é a informação de que os atos violentos ocorrem centralmente nos bairros mais ricos. Mais reveladora ainda, da condição de classe desses jovens de famílias ricas que agem violentamente , é que optaram por queimar um caminhão do sistema Mercal, um sistema estatal de distribuição de alimentos a baixo custo. Queimaram, mas não saquearam os alimentos. Ou seja, o motivo não era a fome, mas apenas queimar, destruir.

Militares progressistas
As manifestações pacíficas são permitidas e a oposição, caso queira, pode recorrer ao instrumento da revogabilidade de mandatos, contido na Constituição Bolivariana, uma das mais avançadas do mundo, para tentar retirar Maduro pela vida legal. Mas, se o objetivo é exigir, sem base nem fundamento, a renúncia do Presidente Nicolás Maduro, e por meio de incêndios, instalação de linhas de nylon cortantes nas ruas dos bairros mais chiques, o que já provocou a degola de motociclistas, evidentemente, estes grupos vão se defrontar com aquilo que talvez seja uma das mais importantes obras de Chávez: a unidade cívico-militar.

Os militares bolivarianos possuem outra consciência, enriquecida e temperada na experiência da Revolução dos Cravos, de Portugal, no governo antiimperailista de Velasco Alvarado, no Peru, no exemplo do governo socialista do capitão Thomas Sankara, o Che Guevara africano, de Burkina Fasso, experiências em que os militares atuaram sempre ao lado do povo, sustentando um processo revolucionário, transformador, como ferramenta estratégica.

Este é o eixo que dá suporte e mantém de pé a Revolução Bolivariana até hoje, enfrentando todas as ações de desestabilização emanadas pela Casa Branca, ecoadas pela mídia internacional. Assim, é muito explicativo observar que a mídia brasileira, especialmente aquela que apoiou o golpe militar de 64 no Brasil, e, também, o golpe derrotado contra Chávez, em 2002, esteja agora tentando fazer crer que exista uma convulsão social na Venezuela. E que ontem, data dos 25 anos do Caracazzo que pariu a Revolução Bolivariana, nada tenha dito daquela rebelião, quando, apoiou não apenas o pacote de amargas medidas neoliberais, mas, também, a sangrenta matança que hoje está sendo apurada por uma espécie de comissão da verdade de lá.

* Beto Almeida é membro do diretório da Telesur
Fonte: Blog do Miro

5 de janeiro de 2014

A campanha da moda

Janio de Freitas 

A campanha da moda

Todo o falatório em torno de PIB de 1% ou de 2% nada significa diante da queda do desemprego a apenas 4,6%
Quem não discute gosto anda na moda, que é um modo de não ter gosto (próprio, ao menos). Até por solidariedade aos raros que não se entregam à moda eleitoreira de dizer que 2013 foi um horror brasileiro e 2014 será ainda pior, proponho uns poucos dados para variar.
Com franqueza, mais do que a solidariedade, que tem motivo recente, é uma velha convicção o que vê importância em tais dados. Um exemplo ligeiro: todo o falatório em torno de PIB de 1% ou de 2% nada significa diante da queda do desemprego a apenas 4,6%. Menor que o da admirada Alemanha. Em referência ao mesmo novembro (últimos dados disponíveis a respeito), vimos as manchetes consagradoras "EUA têm o menor desemprego em 5 anos: cai de 7,3% para 7%". O índice brasileiro, o menor já registrado aqui, excelência no mundo, não mereceu manchetes, ficou só em uns títulos e textos mixurucas.
Mas o índice não pode ser positivo: "O índice caiu porque mais pessoas deixaram de procurar emprego". Se mais desempregados conseguiam emprego, como provava o índice antes rondando entre 5,6% e 5,2%, restariam, forçosamente, menos ou mais desempregados procurando emprego? PIB horrível, falta de ajuste fiscal, baixa taxa de investimentos, poucas privatizações, coitado do país. E, no entanto, além do emprego, aumento da média salarial, a ponto de criar este retrato do empresariado de São Paulo: a média salarial no Rio ultrapassou a dos paulistas.
A propósito: com as alterações do Bolsa Família pelo Brasil sem Miséria, retiraram-se 22 milhões de pessoas da faixa dita de pobreza extrema. Com o Minha Casa, Minha Vida, já passam de 1 milhão as moradias entregues, e mais umas 400 mil avançam para a conclusão neste ano. A cinco pessoas por família, são 7 milhões de beneficiados com um teto decente, água e saneamento.
Sobre dados assim e 2014, escreve o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sérgio Vale: "Infelizmente, veremos mais promessas de ampliação do Bolsa Família e do salário mínimo, que, no frigir dos ovos, é o que tende a reeleger a presidente". Da qual, aliás, acha que em 2014 "deverá se apequenar ainda mais". Da mesma linhagem de economistas --a que domina nos meios de comunicação--, Alexandre Schwartsman dá à política que produziu aqueles resultados o qualificativo de "aposta fracassada", porque só deu em "piora fiscal, descaso com a inflação e intervenção indiscriminada, predominando a ideologia onde deveria governar o pragmatismo".
"Infelizmente" e "aposta fracassada" para quem? Para os 22 milhões que saíram da pobreza extrema, os 7 milhões que receberam ou receberão um teto em futuro próximo, os milhões que obtiveram emprego, os milhões ainda mais numerosos que tiveram melhoria salarial?
E, claro, ideologia existe só no que se volta para os problemas e possíveis soluções sociais. Quem se põe de costas para o que não interesse à elite financeira e ao poder econômico, não o faz por ideologia, não. Por esporte, talvez.
Foi a esse esporte, quando praticado orquestradamente nos meios de comunicação, que Dilma Rousseff se referiu como uma "guerra psicológica", e gerou equívocos críticos. Não se trata de "expressão antidemocrática", nem própria dos tempos da ditadura. É a denominação, técnica ou científica, como queiram, de métodos de hostilidade não militares, diferentes das campanhas por não serem declarados em sua motivação e seus fins, e buscando enfraquecer o adversário por variados tipos de desgaste.
Não é o caso da pregação tão óbvia no seu propósito de prejudicar eleitoralmente Dilma Rousseff. E prática tão evidente que, já no início de artigo na Folha, o empresário Pedro Luiz Passos definiu-a como "o negativismo que permeia as análises sobre a economia brasileira, em contraste com a percepção de bem-estar especialmente da base da pirâmide de renda". Ou seja, há um negativismo, intenção de concentrar-se no negativo, real ou manipulado, e a desconsideração do que deu à "base da pirâmide" social alguma percepção de bem-estar.
O elemento essencial na existência de uma nação é o povo. Não é o território, não é o Estado, ambos inexistentes em várias formas de nação ao longo da história e ainda no presente (os curdos, diversos povos nômades, povos indígenas). O PIB e os ajustes feitos ou reivindicados nunca fizeram nada pelos brasileiros que são chamados de povo. A cliente do PIB, dos gastos governamentais baixos e dos juros bem altos são os que compõem a mínima minoria dos que só precisam, para manter o país, do povo.

12 de dezembro de 2013

Insólitas prisões


Por Maria Sylvia Carvalho Franco *

Texto publicado na seção de Tendências / Debates, da Folha, em 08/12/2013

“Quatro da madrugada: instante entre a noite e o amanhecer, quando as decisões lá no topo já se firmaram, quando o que deverá acontecer já aconteceu. Alguém bate à porta, urgente. Quem é? Não se sabe.”

Com essa matriz política, Jan Kott abre sua reflexão sobre o golpe de Estado urdido em “Ricardo 3º”, peça em que a violência dilacera as tramas do cotidiano: súbito, a força física e a intimidação moral irrompem nos afazeres, no lazer, no sono. “Quem dentre nós, pelo menos uma vez na vida, não foi assim despertado?” O ensaio de Kott sobre “Ricardo 3º” faz dessa figura uma grande metáfora da “húbris” política, desvelando a essência do ato despótico e sua perene ameaça.
Assistimos, aqui e agora, à reiteração dessas práticas. As detenções dos réus da ação penal 470 ocorreram após um processo transparente, mas o foram com bizarria do prisma ético. Sua imposição intempestiva, em longo feriado, valeu-se do emblemático Dia da República e da suspensão, no calendário, de três dias úteis. Pergunta-se o porque da pressa: Joaquim Barbosa valeu-se do recesso para decidir sozinho, ignorando seus pares?
A efetivação repentina dessas prisões, após um lento processo, insere o monopólio estatal da força física no cotidiano das pessoas. Noite que enseja emboscadas, ou feriado que paralisa a vida pública e privada, ambas as situações cancelam as garantias constitucionais.
Não visamos, aqui, a procedência das prisões, mas seu arbitrário “modus faciendi”. O uso do feriado não é inédito nas práticas políticas autoritárias: entre nós, basta citar os ardilosos planos econômicos, como o de Collor. Há mesmo uma história dessas tocaias: nas imagens acentuadas por Kott, o golpe de Ricardo 3º condensa-se na semana de Todos os Santos e Finados, tropos polissêmicos onde o dia dos mortos e o morticínio do tirano conjugam-se: os assassinatos, processos e decapitações não por acaso efetivam-se quando a vida social está suspensa, em luto. Inglaterra elisabetana ou República brasileira, a conivência com tais condutas resulta na mesma inversão de valores e práticas já presentes na democracia grega e sintetizadas por Platão como raízes do poder tirânico.
Por fim, completando os atentados à cidadania, juntas médicas ratificaram o desrespeito a um preso doente. No laudo sobre a saúde de José Genoino, afirma-se que ele pode suportar o cárcere: bastam remédios, dieta, exercícios regulares e (pasme-se!) evitar “fatores psicológicos estressantes”. Os doutores ironizam ou ignoram o que significa uma prisão, enunciando um oximoro: cadeia sem trauma.
As juntas que se pronunciaram sobre Genoino –e talvez as que examinam Jefferson– esqueceram-se de que avaliam prisioneiros cujas vidas não se assemelham à dos pacientes abstratos cujos diagnósticos pautam-se pelos parâmetros rotinizados oferecidos pela tecnologia médica. Lendo seus pareceres, tem-se o sentimento de que a submissão aos poderosos avalizou tais contrassensos. Tanto mais grave torna-se essa conduta quando distinguimos a atual crise nos meios médicos brasileiros e lembramos o quanto a bioética vem sendo debatida mundialmente.
Após a renúncia de Genoino, as circunstâncias de sua captura podem parecer episódicas, mas, nelas, o imprudente uso do poder evidencia o vezo, perene no Estado brasileiro, de afrontar o cidadão.
A crítica ao “modus operandi” das prisões não implicam tolerância ao crime; pelo contrário, ela pressupõe que sentenças legais não autorizam sua execução ilegítima.
Vale recordar que as denúncias contra a democracia martelam a tese de que nela é ínsita a impunidade. Já dizia Platão ao invectivar o regime ateniense das liberdades que, na polis “licenciosa”, condenados à morte ou ao exílio não “deixam a praça, circulam em público, como se fossem indiferentes a todos, invisíveis, como fantasmas de heróis”. Pelo visto, alguns magistrados são platônicos e gostariam de banir a democracia para sempre.
* MARIA SYLVIA CARVALHO FRANCO é professora titular aposentada de filosofia da USP e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

10 de dezembro de 2013

A aposta na democracia contra o caos


São Paulo elegeu neste domingo 1.125 representantes para governar a cidade com Haddad, o maior conselho popular da história brasileira.

por: Saul Leblon 


A cidade de São Paulo elegeu neste domingo o maior conselho popular da história brasileira. Com pouco espaço na imprensa e uma divulgação despolitizada de parte da própria prefeitura,  ele representa, paradoxalmente, talvez a resposta mais arrojada ao anseio de participação ecoado nas ruas de junho.

São Paulo reúne 32 sub-prefeituras.

A partir de 25 de janeiro - quando os conselheiros eleitos tomam posse - elas terão um organismo local de fiscalização, consulta e proposição reclamado há décadas como antídoto ao caos logístico e social na maior metrópole brasileira e uma das maiores do mudo.

Com um representante para cada 10 mil habitantes,  a cidade disporá  então de 1.125 vozes a falar por ela com conhecimento de causa e legitimidade.

É a aposta na democracia contra o caos. Se vingar, fará história e não apenas em São Paulo.

Embora a área de ação de cada conselheiro esteja circunscrita ao perímetro do bairro, nada impede que a Prefeitura institua fóruns regionais ou mesmo municipais, compostos por representações proporcionais destes conselhos, para debater e planejar grandes ações de interesse de toda a cidadania.

Na verdade, dada a natureza sistêmica dos grandes problemas urbanos de uma metrópole como São Paulo, essa progressão democrática é quase inevitável.

O recente reajuste do IPTU, que inflamou o espírito separatista de uma parcela da cidade  cujo horizonte comunitário começa e termina na garagem do prédio, por certo teria outro respaldo político fosse ele previamente discutido e sancionado por um fórum de representações proporcionais  ao mosaico paulistano.

O debate sobre o novo Plano Diretor de São Paulo, fomentado pela gestão Haddad, certamente teria uma densidade e  um discernimento diferenciados, se  estruturado  a partir dos conselhos municipais.

O grande risco é subestimar essa oportunidade democrática abastardando-a como um  simulacro do que deveria ser.

O que deveria ser passa pelas grandes questões que desafiam a democracia e o planejamento da sociedade em nosso tempo.

Marx disse que o ‘o capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros  da cabeça aos pés’.

A imagem se aplica literalmente  à descrição do processo contínuo de valorização e exclusão  em uma cidade com o tamanho e o calibre dos interesses entranhados nos 1.500 km2  de São Paulo.

A ideia de que esse açougue possa ser administrado pelo livre curso dos interesses graúdos  que o dominam é o que de mais próximo se pode conceber  em termos de barbárie urbana.

É disso, do direito ao livre curso dos mercados sobre a cidade, que falam as entrelinhas das críticas despejada contra a gestão Haddad por parte da emissão conservadora.

Critica-se o prefeito pelos seus acertos.

A intrínseca barbárie apregoada na fuzilaria contra o IPTU progressivo, e contra o Plano Diretor  que coíbe o vale-tudo imobiliário,  deriva da mesma cepa que na esfera nacional ecoa o bombardeio  contra  o  ‘intervencionismo da Dilma’.

Os elevados custos humanos e materiais da internalização da crise mundial no sistema econômica brasileiro nunca são projetados  quando se trata de fuzilar  ‘a gastança’ das medidas federais  tomadas para evitá-los.

Providências equivalentes, em termos de vida urbana, deveriam ter sido adotadas em metrópoles fortemente conectadas aos humores globais, como é o caso de São Paulo.

O Minha Casa, Minha Vida, no entanto, lançado como medida  contracíclica no plano federal, teve na São Paulo dirigida pelo comodato Kassab/serrista, um dos seus piores desempenhos. O mesmo se pode dizer  no que diz respeito  à adesão  ao Brasil Sem Miséria.

É forçoso arguir se até mesmo prefeitos progressistas iriam além do fatalismo ortodoxo, desprovidos de um contrapeso democrático  que os conectasse diretamente ao metabolismo nervoso da cidade.

São Paulo não precisa de uma crise mundial para revelar as camadas majoritárias de sua  gente expostas a um cotidiano de abandono  e privação.

Num  espaço por excelência de exercício da cidadania,  a igualdade perante a lei aqui significa muito pouco à imensa maioria dos paulistanos desprovidos do poder econômico  que lhes dê acesso aos gabinetes onde a cidade é decidida.

A cidadania que se exerce assim, esporadicamente,  no comparecimento às urnas descarnado de outras instâncias de participação, revela-se um poder meramente formal  diante do bloco granítico no qual se fundem  a política e o dinheiro.

O gradiente dos direitos civis na metrópole é diretamente proporcional à quilometragem que separa bairros elegantes dos arruamentos suburbanos.

Ninguém escapa do inferno pelas mãos do  diabo.

O que se disputa no Brasil hoje – enevoado pela vaporosa endogamia  de togas e mídia--  é se o passo seguinte da história aqui será determinado pelos  impulsos cegos dos mercados ou pelo planejamento democrático dos cidadãos.

A  importância do conselho  eleito neste domingo em São Paulo deve ser avaliada dentro dessa disjuntiva

Com algum otimismo, até mais além dela.

A história ensina que a passagem de uma época para outra requer não apenas condições objetivas, mas rupturas de engajamento social que  reúnam a  energia da força e do consentimento para desbravar  novos caminhos.

O novo caminho no caso de São Paulo significa tornar  a democracia  na gestão da cidade  indissociável dos que dela sempre foram excluídos.

A gestão Haddad  tem um pedaço disso nas mãos a partir de agora. Cabe não desperdiçar  a colheita embutida na semente.

A ver.


5 de dezembro de 2013

Quando a Espanha sabia ser pobre e a pobreza os fazia solidários.

 

Opinião: Quando a Espanha sabia ser pobre com dignidade

 ALMUDENA GRANDES
ESPECIAL PARA O "NEW YORK TIMES"
Nas manhãs geladas de inverno, as empregadas domésticas não andavam pelas ruas de Madri. Me recordo delas sempre correndo, com os braços cruzados sobre o peito para tentar conservar o calor de um casaco de lã. Me recordo também de alguns homens soturnos que caminhavam devagar, com as lapelas do paletó levantadas e uma mala de papelão na mão. Eu os olhava, me perguntava se não sentiam frio, me surpreendia com sua compostura e guardava minha curiosidade para mim mesma.
Nos anos 60 do século 20, a curiosidade era um vício perigoso para as crianças espanholas.
Crescemos entre fotografias -às vezes emolduradas sobre uma cômoda, às vezes escondidas numa gaveta- de pessoas jovens e sorridentes que não conhecíamos. Quem é? Eram tios ou noivos, primas ou irmãos, avôs ou amigas da família, e estavam mortos. Quando morreu? Faz muito tempo. Como foi, por que, o que aconteceu? Foi na guerra, ou depois da guerra, mas é uma história tão tenebrosa, é muito triste, é melhor não falar de assuntos desagradáveis.
Ali, naquele conflito misterioso do qual ninguém se atrevia a falar, embora ainda ardesse nos olhos dos adultos como uma ferida aberta, infectada pelo medo ou pela culpa, terminavam todas as conversas. Assim aprendemos a não perguntar muito antes de ler os terríveis e certeiros versos de Jaime Gil de Biedma: de todas as histórias da História, sem dúvida a mais triste é a da Espanha, porque termina mal.
Os espanhóis de hoje não gostam de se lembrar disso. Vivíamos em um país pobre, mas isso não era novidade.
Sempre tínhamos sido pobres, inclusive na época em que os reis da Espanha eram senhores do mundo, quando o ouro da América atravessava a península sem deixar em seu rastro mais que a poeira levantada pelas carroças que o levavam a Flandres, para saldar as dívidas da Coroa.
Na Madri de minha infância, onde um sobretudo era um luxo que não estava ao alcance das domésticas, nem dos trabalhadores diaristas que esperavam a hora de embarcar em um trem, a caminho da colheita de uvas francesas ou de uma fábrica alemã, a pobreza continuava sendo um destino familiar, a única herança que muitos pais podiam deixar para seus filhos.
Entretanto, nesse legado havia algo mais, uma riqueza que perdemos.
Olho para trás e me recordo de tudo, do frio, dos mendigos, dos silêncios, do nervosismo dos adultos quando cruzavam com um policial na calçada, de um costume antigo. Se um pedaço de pão caía ao chão, nos obrigavam a recolhê-lo e lhe dar um beijo antes de devolvê-lo à cesta de pão, porque houve muita fome em nossas casas quando morreram aquelas pessoas queridas de quem ninguém queria nos falar. Porém, por mais que eu me esforce, não me recordo da tristeza.
Da raiva, sim, dos maxilares cerrados, como que talhados em pedra, de alguns homens e mulheres que em uma só vida tinham acumulado tragédias suficientes para afundar-se seis vezes, mas que, não obstante, continuavam em pé. Porque na Espanha, até uns 30 anos atrás, os filhos herdavam a pobreza, mas também a dignidade de seus pais, uma maneira de ser pobre sem deixar de ser digno, sem deixar de lutar por seu futuro, sem nunca se dar por vencido.
Nem mesmo Franco, nos 36 anos de feroz ditadura que foram os frutos daquela guerra maldita, conseguiu evitar que seus inimigos prosperassem em condições atrozes, que se apaixonassem, que tivessem filhos, que fossem felizes. Na Espanha de minha infância, a felicidade era também uma maneira de resistir.
Depois nos disseram que era preciso continuar a esquecer. Que para construir a democracia era imprescindível olhar para frente, fazer como se nunca tivesse acontecido nada por aqui. E, ao esquecermos o ruim, também esquecemos o bom. Não parecia importante, porque de repente éramos bonitos, éramos modernos, estávamos na moda... Para quê recordar a guerra, a fome, centenas de milhares de mortos, tanta miséria?
Assim, renegando as mulheres sem sobretudo, as malas de papelão e os beijos no pão, perdemos os vínculos com nossa própria tradição, as referências que agora nos poderiam ajudar a superar esta nova pobreza que nos atacou de surpresa, vinda do coração dessa Europa que nos ia tornar ricos e que nos arrebatou um tesouro que não se compra com dinheiro.
Assim, nós, os espanhóis de hoje, mais que arruinados, estamos perdidos, abismados em uma confusão paralisante e inerme, desorientados como um menino mimado de quem tiraram os brinquedos e que não sabe protestar, reclamar o que era seu, denunciar o roubo, deter os ladrões.
Se nossos avôs nos vissem, primeiro morreriam de rir, depois morreriam de pena. Porque para eles isso não seria uma crise, mas um leve contratempo. Mas nós, que durante séculos soubemos ser pobres com dignidade, nunca soubemos ser dóceis.
Nunca, até agora.
A escritora espanhola Almudena Grandes publicou vários livros sobre a Guerra Civil Espanhola. Um deles, "El Corazón Helado", foi traduzido para vários idiomas, incluindo o inglês

2 de dezembro de 2013

Cubanos trazem uma nova forma de fazer Medicina



  Christina Nascimento no http://odia.ig.com.br/noticia/
 
 
Rio - É quase impossível não estranhar quando se ouve de Julio Cesar Nunez Naranjo, 46 anos, o valor que recebe por mês em Cuba. “Cerca de 30 dólares (quase R$ 70). É uma boa remuneração”, diz o médico, em um compreensível ‘portunhol’, após atender uma mãe e um bebê no Centro Municipal de Saúde de Vila do Céu, em Campo Grande. Mas a relação com o dinheiro não é a única diferença na comparação com os médicos brasileiros.

A chegada dele à unidade já provocou mudança no comportamento de outros profissionais. E a explicação está na formação acadêmica: a medicina cubana incentiva laços mais estreitos com os pacientes. “Os médicos que vêm de fora colhem material para preventivo. Alguns não faziam isso. Mandavam sempre a enfermeira. Já ouvi muitos dizendo que agora vão fazer o procedimento”, conta uma funcionária da unidade.

A sensação térmica em Vila do Céu era de 40 graus na quinta-feira, quando Julio recebeu O DIA no consultório. Do bolso, ele tira um lenço para enxugar o suor no rosto. Apesar do ar condicionado, o calor é quase insuportável. Uma realidade que não assusta quem tem no currículo experiências no Haiti, onde o atendimento era feito em postos sem ventilação ou qualquer iluminação.
Julio Cesar Naranjo, 46 anos, deixou para trás dois filhos e tem pela frente o desafio de atender 4 mil pessoas
Foto:  Divulgação
“Achei que iria encontrar um cenário no Rio muito pior do que realmente é. Vi que tem estrutura e a equipe é dedicada. É possível fazer um bom trabalho”, avalia ele, que deixou dois filhos na ilha de Fidel. “Um deles será médico”, diz, orgulhoso. Por aqui, o trabalho na comunidade de 29 mil habitantes será exaustivo. No hospital onde atuava em Cuba, ele tinha sob sua atenção 1,2 mil pessoas. Em Vila do Céu, serão 4 mil. Pacientes como a pequena Mariana Cadena, de 6 meses, estão na lista de atendimento. Enquanto mama, sua mãe, a camelô Raquel Cadena, 38, diz estar esperançosa.
Pacientes aprovam atendimento
Foto:  Divulgação
“Ficamos quase dois meses sem o médico de família. A ajuda vinha da enfermeira, que acompanhava o peso da neném. Estava preocupada com o desenvolvimento dela”, avalia Raquel. A mãe disse não se importar com a consulta auxiliada por uma enfermeira tradutora. “Quero alguém para me atender. Não importa de onde venha”.
Dos R$ 10 mil que o governo brasileiro vai passar para a Organização Pan-Americana de Saúde, referentes ao trabalho dos cubanos, Julio e sua família vão ficar com cerca de R$ 2,3 mil. O restante é retido por Cuba, que durante os três anos que os médicos vão ficar aqui continuará depositando o salário deles. “O que vai para lá será reinvestido na área de saúde. Não é para mim. É para todo mundo”, explica Julio, sem se mostrar incomodado.
Cidade que mais avançou
A chegada de 70 médicos estrangeiros, sendo 65 vindos de Cuba, vai elevar o Rio ao patamar de cidade que mais avançou a curto prazo em cobertura de saúde da família. A partir de amanhã, o cadastro de controle da Secretaria Municipal de Saúde passa a registrar mais 300 mil cariocas com atendimento monitorado pelo programa. Com isso, serão, no total, 2,83 milhões de pessoas monitoradas pelos postos de saúde e Clínicas da Família. Com o reforço vindo de outros países, esse percentual vai saltar dos atuais 41% para 45%.

Até o momento, a prefeitura não tem registro de problemas com médicos estrangeiros. Pelo contrário. A aceitação tem superado as expectativas. Acostumada a atender em localidades de extrema miséria, em países como Honduras e Bolívia, Leonor Maria Pérez, 48, acha que a profissão é uma atividade humanitária. “Todo médico deveria trabalhar em regiões carentes. A gente estuda é para isso, para ajudar as pessoas”.
Medo da violência noticiada
A rotina no Rio é parecida com a de Cuba. São 40 horas por semana, mas lá os médicos trabalham quatro horas todos os sábados. Assim como o colega que atua em Vila do Céu, José Manuel Anaya, 45, que trabalha no Centro de Saúde de Inhoaíba, passou pela Venezuela. Também esteve em Gana antes de vir para o Brasil.
No Rio, admite ter medo da violência: “Vejo nos jornais que aqui tem três, quatro mortos por dia. Por isso, estou sempre atento”, afirma o cubano, que ainda não teve tempo para conhecer pontos turísticos da cidade

1 de dezembro de 2013

Arroubo tucano é pânico

Antonio Lassance no site Carta Maiorhttp://www.cartamaior.com.br

Arroubo tucano é pânico


 

Atropelados pelas denúncias, tucanos enfrentarão o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em local apropriado para discutir o trensalão do PSDB.



Era uma vez um bando de tucanos - como se sabe, o coletivo de pássaros é bando. Empoleirados e empertigados, um ao lado do outro, eles se esforçaram ao máximo para demonstrar altivez, unidade e indignação.

Sua reunião mais parecia o quadro da Última Ceia, mas ainda não haviam escolhido ninguém para Cristo. Negaram três vezes que estejam metidos em maracutaias. “Não, não e não!”

Chamaram a imprensa para fazer disso uma coletiva. Como se tivessem descoberto alguma novidade, exibiram uma papelada tirada do sarcófago de uma investigação, nunca levada adiante, sobre o escândalo do trensalão do PSDB, carinhosamente apelidado de “caso Siemens”.

Provaram, por “a” mais “b”, que alguém teve o desplante de traduzir “o governo de São Paulo” por “governo do PSDB”. Onde já se viu? Onde se lê, em Inglês, “pessoas do governo”, aportuguesaram para “tucanos”. Definitivamente, alguém está querendo confundir as coisas.

Para dar mais sobriedade ao encontro, o bando colocou no meio o candidato a presidente, Aécio Neves. Alckmin e Serra não compareceram. Foi melhor. Havia o risco de levantarem a mão na hora da leitura do documento e dizerem “sou eu”.

Conforme roteiro previamente ensaiado, esses descendentes mais próximos dos dinossauros, fazendo jus à família do Tiranossauro Rex, rosnaram ameaças, rogaram pragas e abriram a torneira de palavrões tirados do Dicionário Carlos Lacerda de Golpes Abaixo da Linha de Cintura. Era para cada membro do jogral proferir apenas um despautério, mas há sempre quem quer aparecer mais que os outros. Esse, mais afoito, foi logo chamando o ministro da Justiça de vigarista, sonso e membro de quadrilha. Sempre ele, o tucano mais provocador e especialista em promover dissensões, conforme uma qualificação dada por um companheiro de partido.

Qual não foi a surpresa quando o ministro da Justiça reagiu. Fazia tempo que algo assim não acontecia. Parece, pelo menos até agora, que os petistas resolveram finalmente sair da retranca. Dizem as más línguas do jornalismo isento, aquele que se isenta de pagar impostos, que a orientação partiu da própria presidenta.

Precisávamos saber mais detalhes sobre que tipo de orientação terá sido essa. Imagino algo como: “vá lá e mostre que não temos sangue de barata”. “Chega de complexo de vira-latas”. “Manda brasa e depena esses galináceos”.

E foi isto o que o ministro fez, duas vezes. Da primeira vez, o jornalismo isento (de impostos) deve ter dormido em metade da coletiva e só acordou ao final. Perdeu e não divulgou o mais importante. No dia seguinte, o ministro teve que voltar a repetir tudo e servir café quente para aquecer as más línguas. Finalmente, eles ficaram atentos e se dignaram a dar uma declaraçãozinha mais generosa.

"O dia em que o ministro da Justiça aceitar ser chamado de vigarista, sonso - no sentido de dissimulado, ou ser chamado de membro de quadrilha e não reagir, ele não defende o seu cargo. Este é um cargo de Estado". "Quem denuncia falso crime comete outro crime". “Isso é um vil pretexto para criar uma cortina de fumaça sobre o fato de que o ministro tinha os documentos e os encaminhou para a PF" [traduzindo: Polícia Federal].

"Acho lamentável que queiram transformar quem cumpre a lei em réu apenas pelo fato de que existe uma investigação que, obviamente, existe desde 2008. A maior parte dos países em que houve esse escândalo já investigou, já puniu pessoas envolvidas. O Brasil ainda caminha lentamente"."É esse meu papel e de qualquer ministro da Justiça que não quer ser um engavetador, como no passado já houve”.

Na próxima quarta-feira (4/12), o bicho vai pegar. Cardozo vai falar em audiência pública na Comissão de Segurança e Combate ao Crime Organizado, local certo para tratar do trensalão do PSDB. Os tucanos queriam que o ministro fosse ao Congresso, e não é que ele topou? Agora, os tucanos precisarão fazer um esforço ou tomar um Lexotan para evitar que sua irritação demonstre o pânico que transpira em bicas a cada vez que o assunto é ventilado. Vai ser necessário muito arroubo. Caramba, e como traduzirão arroubo?

28 de novembro de 2013

Esconde esconde


Janio de Freitas

FSP
Esconde esconde
Estar encoberto é o traço da sequência que termina no arquivo do Ministério Público Federal em SP
A acusação do senador Aécio Neves e de outras eminências do PSDB ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, de envolvê-los em ilicitudes para desviar as atenções postas nos petistas presos, não resiste a um simples olhar aos jornais ou telejornais. Até um exame médico de José Genoino continuou mais importante do que a distensão EUA/Irã, do que um pronunciamento conservador do papa aparentemente inovador, do que manifestações de entidades de magistrados e da OAB contra o presidente do STF --e, claro, do que o tal envolvimento de peessedebistas.
Mas uma parte e outra tornam necessárias mais duas linhas investigatórias nessa história de corrupção nas licitações de metrô e trens em São Paulo. "Mais duas" não é bem o caso, porque até agora sabe-se de investigações que o Ministério Público Federal em SP deixou de fazer, mas nada se sabe com certeza de investigação em processamento. A propósito, as condutas que, por vários anos, evitaram investigações aqui e até uma singela colaboração do MP com a investigação suíça deveriam ser objeto de inquéritos rigorosíssimos. Tanto no próprio Ministério Público Federal no Estado, apesar de pouco promissor contra a força do corporativismo, quanto no plano federal, pelo dano a relações internacionais do país.
Aécio Neves começou por acusar de manobra a entrega à Polícia Federal, pelo ministro, de uma carta em que é feito o envolvimento de políticos do PSDB com a corrupção. Mas o que Cardozo deveria fazer senão entregá-la à PF? Ao que parece, o que se deseja é exatamente que toda suspeita de corrupção, como faz a carta, seja encaminhada à PF e suas congêneres. O original da carta, porém, segundo as eminências do PSDB, não incluiria citação alguma ao seu partido, só existente na versão divulgada. Ao que Cardozo responde com a informação de que a carta exibida pelo PSDB, sem as incriminações, tem menos folhas, ou menos texto, do que o original por ele recebido e encaminhado à PF.
Nesta altura, os dois lados nos lançaram no terreno do inacreditável. Aécio Neves, José Eduardo Cardozo e José Aníbal são igualmente inimagináveis como autores ou como coniventes em acréscimos ou supressões documentais para incriminar adversários políticos. Há algo estranho e encoberto no confronto de leviandades mutuamente atribuídas.
Estar encoberto é o traço característico da sequência que começa em dinheirama correndo debaixo de mesas governamentais, segue em contratos que escondem os valores corretos e mergulha no arquivo do Ministério Público Federal em São Paulo, onde uma correspondência de investigação se esconde e esconde a própria investigação --esta, feita na Suíça porque o Brasil não a faz. É necessário e urgente interromper a característica do caso, para esclarecer os sigilos da carta. Um dos lados vai sair mal do esclarecimento. Mas isso, provavelmente, começará a esclarecer o mais importante. Talvez, o mais escondido na história toda.

24 de novembro de 2013

"A Lei sou eu". Justiça e vingança, a saga de Genoino

familia do genuino A Lei sou eu: Justiça e vingança, a saga dos Genoino

 retirado do Balaio do Kotscho


Vou dar uma folga hoje ao jornalista que atende pelo mesmo nome e pedir licença a vocês para escrever este texto como velho amigo da família de José Genoíno, que é o que mais me importa neste momento. Para mim, embora ganhe a vida atualmente como comentarista político, o destino dos seres humanos sempre esteve acima de qualquer outra questão, ao longo deste quase meio século de carreira de repórter, em que procurei contar as histórias da minha terra e da minha gente, em sua grande maioria brasileiros anônimos.
De tanto ler ao longo da semana colunas, blogs e comentários nas redes sociais eivados de torpezas, vilezas, canalhices, sordidez, perversões, infâmias, sabujice, injúrias e safadezas, estava relutando em voltar ao assunto porque chega uma hora em que a indignação é tanta que as palavras chegam a perder o sentido, a gente já nem sabe o que dizer.
Mudei de ideia na manhã desta sexta-feira cinzenta em São Paulo, ao ler, na página A3 da Folha, o artigo do competente jornalista Carlos Brickmann, que pode ser acusado de tudo, menos de ser petista.
Escreve Brickmann: "Uma sociedade que, mesmo tendo razão ao reivindicar a aplicação rígida da lei, tenta extrapolar seus limites para atormentar ainda mais quem já foi punido pela privação da liberdade precisa se reavaliar. Com a prisão, os infratores foram punidos e a vingança da sociedade se realizou. Ir além é retroceder a épocas que já deveriam ter sido superadas".
O que boa parte dos jornalistas-pistoleiros acoitados na grande imprensa quer, na verdade, não é Justiça, mas vingança contra um partido político e seus dirigentes _ e José Genoíno, deputado federal e ex-presidente do PT, tornou-se seu principal alvo. "O que a lei prevê é a privação da liberdade, em diversos graus. A lei não prevê maus-tratos, não prevê castigos físicos, não prevê condições inadequadas de prisão", lembra Brickmann, com toda propriedade.
Como pode o mesmo Supremo Tribunal Federal que adotou a teoria do "domínio do fato", para punir mesmo sem provas ou atos de ofício, permitir que um homem gravemente doente do coração, como é do conhecimento geral da Nação, seja jogado num presídio em regime fechado quando foi condenado ao semiaberto?
Esta barbaridade já durava uma semana, quando foi momentaneamente suspensa para que Genoíno fosse levado a um hospital na tarde de quinta-feira, depois de declarar, em pé, na sala do diretor do presídio, aos colegas que foram visita-lo: "Entre a submissão e a humilhação, eu vou para a luta nem que leve a minha vida".
Filho de lavradores, nascido na comunidade de Várzea Redonda, em Quixeramobim, no Ceará, acolhido na casa paroquial de Senador Pompeu para que pudesse estudar, líder estudantil e ex-guerrilheiro, fundador do PT, parlamentar quase a vida toda, Genoíno é a prova viva da famosa frase de Euclides da Cunha, segundo a qual "o sertanejo é antes de tudo um forte". Por isso, não me surpreende a sua disposição de enfrentar as dificuldades de cabeça erguida.
Mas não é só ele: o que mais me comove em toda esta história é o comportamento de solidariedade permanente e absoluta de sua família, a pequena grande Rioco, que conheceu na prisão, e seus três filhos, Miruna, Ronan e Mariana, que estão sempre por perto na Papuda para zelar por sua integridade física e denunciar o tratamento desumano que lhe é dispensado desde que se apresentou à Polícia Federal.
Parafraseando Luís XIV, o rei absolutista da França, a quem é atribuída a frase "O Estado sou eu", José Genoíno e os demais políticos presos estão submetidos ao livre-arbítrio de Joaquim Barbosa e outros ministros, que adotaram o lema "A Lei sou eu", para atender à sanha de jornalistas e seus leitores ensandecidos, que não se conformam apenas com a condenação dos réus, mas querem humilha-los e, se possível, extermina-los.
"Por que obrigar pessoas próximas dos 70 anos a acocorar-se para fazer suas necessidades?", indaga em seu artigo o colega Carlinhos Brickmann, a quem agradeço por me dar as palavras que não encontrava para expressar meu sentimento de vergonha, dor e revolta. Sim, eu sei, são estas as condições degradantes em que vive a grande maioria dos presos no nosso país, mas nem por isso vou me conformar com a saga de sofrimento enfrentada pela família de Genoíno, em defesa da vida, enquanto se multiplicam as cenas de tripúdio explícito dos arautos da morte diante da dor alheia.
Aguenta firme, Genoíno, e manda um abraço para toda a família, e aos amigos Zé Dirceu e Delúbio, que espero reencontrar em breve, quando a lei for cumprida e eles passarem para o regime semiaberto ao qual foram condenados. Um dia, que espero não demore muito, a História fará Justiça com vocês.
Perdoem-me o desabafo, mas tem hora que o cidadão engole o jornalista. Jornalistas temos muitos; amigos, nem tanto.

21 de novembro de 2013

Cúpula do Governo Alckmin cai no propinoduto

Cúpula do Governo Alckmin cai no propinoduto




Ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer denuncia formalmente ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica um forte esquema de corrupção nos governos do PSDB em São Paulo

Segundo ele, Edson Aparecido, braço direito do governador Geraldo Alckmin e hoje secretário da Casa Civil recebeu propinas das multinacionais entre 1998 e 2008; propinoduto na área de transportes, segundo Rheinheimer, visava abastecer o caixa dois do PSDB e do DEM; ele apontou ainda corrupção nos governos de José Serra e Mario Covas; outros nomes citados são dos secretários José Aníbal, de Energia, Jurandir Fernandes, de Transportes, Rodrigo Garcia, de Desenvolvimento Econômico, e até do senador Aloysio Nunes e do deputado Arnaldo Jardim; strike completo?É quase um strike.
Um relatório entregue no dia 17 de abril deste ano ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica cita praticamente toda a cúpula do governo de Geraldo Alckmin no chamado "propinoduto tucano". A denúncia, formal, foi feita por Everton Rheinheimer, ex-diretor da Siemens, que afirmou dispor de "documentos que provam a existência de um forte esquema de corrupção no Estado de São Paulo durante os governos (Mário) Covas, (Geraldo) Alckmin e (José) Serra, e que tinha como objetivo principal o abastecimento do caixa 2 do PSDB e do DEM".

O furo de reportagem, dos jornalistas Fernando Gallo, Ricardo Chapola e Fausto Macedo, do Estado de S. Paulo (leia aqui), aponta que o lobista Arthur Teixeira, denunciado por lavagem de dinheiro na Suíça, teria pago propinas ao deputado licenciado Edson Aparecido, atual secretário da Casa Civil e braço direito de Geraldo Alckmin. O documento também cita outros nomes graúdos do tucanato paulista, como os secretários José Aníbal, de Energia, Jurandir Fernandes, dos Transportes, e Rodrigo Garcia, de Desenvolvimento Econômico. Outros nomes mencionados pelo ex-diretor da Siemens são o do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e do deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP) - este, também como beneficiário das propinas.

A denúncia do ex-diretor da Siemens tem peso importante porque é o primeiro documento oficial que vem a público com referência a propinas pagas a políticos ligados a governos tucanos. Até então, apenas ex-diretores de estatais como a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) vinham sendo citados. Rheinheimer foi diretor da divisão de transportes da Siemens, onde atuou durante 22 anos. Ele disse ainda que o cartel "é um esquema de corrupção de grandes proporções, porque envolve as maiores empresas multinacionais do ramo ferroviário como Alstom, Bombardier, Siemens e Caterpillar e os governos do Estado de São Paulo e do Distrito Federal".

No Distrito Federal, os desvios teriam ocorrido nos governos de Joaquim Roriz e José Roberto Arruda. Em São Paulo, ele cita os governos de Geraldo Alckmin, José Serra e Mario Covas. O fluxo das propinas ocorria por meio da empresa Procint, do lobista Arthur Teixeira, finalmente denunciado na Suíça, após dois anos de engavetamento do caso pela procuradoria-geral da República em São Paulo, por decisão do procurador Rodrigo de Grandis (leia mais aqui). Rheinheimer está colaborando com a Justiça, no regime de delação premiada. Sobre Edson Aparecido e Reynaldo Jardim, ele sustenta que "seus nomes foram mencionados pelo diretor-presidente da Procint, Arthur Teixeira, como sendo os destinatários de parte da comissão paga pelas empresas de sistemas (Alstom, Bombardier, Siemens, CAF, MGE, T'Trans, Temoinsa e Tejofran) à Procint".
Sobre o senador Aloysio Nunes e os secretários Jurandir Fernandes e Rodrigo Garcia, o ex-diretor da Siemens diz ter tido "a oportunidade de presenciar o estreito relacionamento do diretor-presidente da Procint, Arthur Teixeira, com estes políticos". Sobre José Aníbal, mencionou um assessor: "Tratava diretamente com seu assessor, vice-prefeito de Mairiporã, Silvio Ranciaro".
*Com informações do Portal 247 via MacroPT ABC

Anotações sobre uma farsa (I) ,para os anais da história do Brasil

Texto importantíssimo para futuras pesquisas da história do Brasil.

 

 

Anotações sobre uma farsa (I)

A ideia era transformar José Dirceu num caso exemplar e exemplarisante da Justiça. Chegaram lá: é a vitória da grande hipocrisia que impera no país.

 Eric Nepomuceno no site Carta Maior
Arquivo/ABr
Pouco antes das seis da tarde do sábado passado, um avião da Polícia Federal aterrissou no aeroporto de Brasília, levando os condenados pelo Supremo Tribunal Federal para começar, de imediato, a cumprir as sentenças recebidas. Três horas mais tarde, foram conduzidos à Penitenciária da Papuda. Entre os presos, havia de tudo – da herdeira de um banco privado a um publicitário dado a práticas heterodoxas na hora de levantar fundos para campanhas eleitorais. Práticas essas, aliás, testadas e comprovadas na campanha do tucano Eduardo Azeredo, em Minas Gerais, em 1998.

Lembro bem, porque trabalhei nessa campanha, sob as ordens do sempre presente e ativo Duda Mendonça. E fui pago. 

Mas a imagem que importava era outra: era a de José Dirceu, talvez o mais consistente quadro ativo da esquerda brasileira, e de José Genoíno, o antigo guerrilheiro que chegou a presidir o PT, sendo presos. Essa a imagem buscada, essa a imagem conseguida.

Terminou assim a etapa mais estrondosa de um processo que começou, se desenvolveu e permaneceu vivo o tempo todo debaixo de uma pressão mediática praticamente sem antecedentes neste país de memória esquiva e oblíqua.

Durante meses, com transmissão ao vivo pela televisão, intensificou-se o atropelo de princípios elementares da justiça. E mais: foi aberto espaço para que vários dos magistrados máximos do país pudessem exibir seu protagonismo histriônico e singular, e no final chegou-se a sentenças próprias do que foi esse julgamento: um tribunal de exceção.
 
Jamais foram apresentadas provas sólidas, ou mesmo indícios convincentes, da existência do ‘mensalão’, ou seja, da distribuição mensal de dinheiro a parlamentares para que votassem com o governo de Lula.

O que sim houve, e disso há provas, evidências e indícios de sobra, foi o repasse de recursos para cobrir gastos e dívidas de campanha. Aquilo que no Brasil é chamado de ‘caixa dois’ e que é parte intrínseca de todos – todos – os partidos, sem exceção alguma, em todas – todas – as eleições.

Claro que é crime. Mas um crime que deveria ser tratado no âmbito do Código Eleitoral, e não do Código Penal.

Há absurdos fulgurantes nessa história, a começar pelo começo: o denunciante do esquema do tal ‘mensalão’ chama-se Roberto Jefferson, que pode ser mencionado como exemplo perfeito de qualquer coisa, menos de honradez no trato da coisa pública.

Ávido e famélico por mais e mais prebendas, além das admitidas na já muito flexível prática da política brasileira, foi freado por José Dirceu, na época poderoso ministro da Casa Civil. A vingança veio a galope: Jefferson denunciou a presença do ‘carequinha’ que levava dinheiro a políticos em Brasília.

Atenção: na época, o próprio Jefferson admitiu que tinha levado a metade, apenas a metade, dos milhões prometidos para cobrir dívidas de campanha eleitoral, repassados pelo tal ‘carequinha’, o publicitário Marcos Valério, que – vale reiterar – tinha testado esse mesmo esquema em Minas, em 1998, na campanha do tucano Eduardo Azeredo.

E acusou Dirceu, o mesmo que havia bloqueado seu apetite inaudito, de ser o responsável pelo esquema.

A entrevista de Roberto Jefferson ao jornal ‘Folha de S.Paulo’ foi o combustível perfeito para a manobra espetacular dos grandes conglomerados mediáticos do país, que desataram uma campanha cuja dimensão não teve precedentes. Nem mesmo a campanha sórdida de ‘O Globo’ contra Brizola teve essa dimensão.

O resultado é conhecido: caíram Dirceu e, por tabela, José Genoino. Duas figuras simbólicas de tudo que o conservadorismo endêmico deste país soube detestar com luxo de detalhes.
Todo o resto foi e é acessório. Fulminar Dirceu, devastar a base política de Lula, tentar destroças sua popularidade e impedir sua reeleição em 2006 foram, na verdade, o objetivo central.

Acontece que em 2006 Lula se reelegeu, e em 2010 ajudou a eleger Dilma. E José Dirceu se transformou no alvo preferencial da ira anti-petista em particular e anti-esquerda em geral.
Ele foi condenado, pelo grande conglomerado dos meios de comunicação, no primeiro minuto do primeiro dia, muito antes do julgamento no STF. A própria denúncia apresentada pelo inepto procurador-geral da República, Antônio Silva e Souza, depois aprofundada pelo rechonchudo Roberto Gurgel, é um compêndio de falhas gritantes.

Mas, e daí? Transformou-se na receita ideal para o que de mais moralóide e hipócrita existe e persiste na vida política – e, atenção: judiciária – deste pobre país.

A manipulação feita pelos meios de comunicação, alimentada por uma polpuda e poderosa matilha de cães hidrófobos, fez o resto.

Entre os acusados existe, é verdade, uma consistente coleção da malandrões e malandrinhos. Mas o objetivo era outro: era Dirceu, era Genoíno. Era Lula, era o PT.
Foram condenados, entre pecadores e inocentes, por uma corte suprema que abriga alguns dos casos mais gritantes de hipertrofia de egos em estado terminal jamais vistos no país, a começar pelo seu presidente.

Dirceu e Genoino foram condenados graças a inovações jurídicas, a começar pela mais insólita: em vez de, como rezam os preceitos básicos do Direito, caber aos acusadores apresentar provas, neste caso específico foi posta sobre seus ombros provarem que não tinham culpa de algo que jamais se pôde provar que aconteceu.

É curioso observar como agora ninguém parece recordar que Roberto Jefferson teve seu mandato cassado por seus pares porque não conseguiu provar que aconteceu o que ele denunciou.

Anestesiada e conduzida às cegas pelo bombardeio inclemente e sem tréguas dos meios hegemônicos de comunicação, a conservadora e desinformada classe média brasileira aplaudiu e aplaude esse tribunal de exceção. Aplaude as sentenças ditadas ao atropelo do Direito como se isso significasse o fim da corrupção endêmica que atravessa todos – todos, sem exceção – governos ao longo de séculos.

A ideia era transformar José Dirceu num caso exemplar e exemplarisante da Justiça.
Chegaram lá: é a vitória da grande hipocrisia que impera no país.

O Supremo Tribunal Federal não se fez tímido na hora de impor inovações esdrúxulas.

Afinal, uma única coisa importava e importa: a imagem de José Dirceu e José Genoino sendo presos.

Para o conservadorismo brasileiro, era e é como uma sobre-dose após tempos de abstinência aguda. Pobre país.

Leia a segunda parte das anotações aqui.

Joaquim Barbosa "pediu" a Zé Dirceu para ser ministro do STF.